FILHOS, DEUS ME LIVRE!

Existem decisões que se não forem tomadas hoje, amanhã poderá ser tarde demais.

Numa tarde comum, dessas em que a casa fica silenciosa demais, ela se viu rolando o próprio feed antigo no Instagram, entre fotos salvas, stories arquivados e legendas que pareciam falar com uma versão mais jovem de si mesma, e percebeu que não era saudade de um tempo específico, mas de algo difícil de nomear. Em uma imagem, ela e o parceiro riam em um almoço de domingo; em outra, havia uma viagem rápida, um brinde, um abraço apertado. Existia amor ali, e muito, mas também um espaço em branco, como se a vida tivesse sido bem construída e, ainda assim, faltasse uma presença que desse continuidade ao enredo. Ela se lembrou de quando decidiu não ter filhos: na época, parecia lógico, porque havia planos, metas, liberdade e projetos, e para muitas pessoas essa escolha segue fazendo sentido por anos. Só que o tempo é um artesão discreto; ele muda a gente sem pedir licença e, um dia, sem alarde, a pergunta apareceu, não como cobrança, mas como um sussurro incômodo: “E se eu quiser daqui a pouco… e não der mais?”.

A dúvida não vinha apenas do relógio biológico; vinha do coração e da percepção de que o futuro não é só uma lista de conquistas, mas também aquilo que nos aquece quando o mundo esfria.

Ao imaginar a velhice como quem olha para uma estação distante, porém inevitável, ela pensou em situações concretas: uma consulta, um corredor de hospital, uma notícia difícil, uma limitação temporária, uma internação inesperada, decisões médicas e burocráticas que precisam ser tomadas com lucidez quando o corpo ou a rotina já não colaboram. E, sem perceber, lembrou que, nas últimas datas importantes, os pais de ambos quase nunca estavam por perto como era antigamente; não por falta de carinho, mas porque a vida seguiu caminhos diferentes, com rotinas e distâncias que tornaram raro aquele apoio “de prontidão” que antes parecia óbvio, mas que o relógio do tempo fez intervenções trazendo limitações. Não era o desejo simplista de “ter alguém para cuidar”, como se pessoas fossem obrigação; era a vontade humana de não atravessar certas fases sozinha, de ter por perto alguém que conhecesse sua história por dentro, que chamasse seu nome com intimidade, que compartilhasse memórias e pequenas tradições — alguém para quem ela fosse “minha mãe”, e não apenas “senhora”.

Naquela mesma semana, o tema do patrimônio surgiu quase por acaso, sem ostentação, com senso de realidade: economias, um apartamento, investimentos, talvez uma empresa ou uma previdência, além de objetos com valor afetivo acumulados ao longo do tempo. E, junto com isso, veio outra pergunta simples e definitiva: “Para quem tudo isso vai?”. Ela entendeu que bens não são a razão de uma vida, mas dar destino ao que se constrói também é uma forma de amar e de organizar o próprio sentido de continuidade, porque para alguns, legado é um livro escrito ou um trabalho deixado ao mundo, enquanto para outros legado é gente, são valores transmitidos, oportunidades que se multiplicam e uma história que continua com novas vozes.

Nesse ponto, a reflexão ficou menos dramática e mais clara: ter filhos não é garantia automática de amparo, porque vínculos precisam ser cultivados e ninguém deveria ser reduzido a função, mas, socialmente, a parentalidade tende a ampliar a chance de existir uma rede familiar próxima, com presença contínua e suporte emocional, capaz de perceber mudanças sutis de saúde, humor ou cognição e de reduzir o risco de isolamento prolongado que desgasta o bem-estar. Além disso, em momentos críticos, a vida costuma exigir ajuda prática — acompanhamento a exames, logística de rotina, decisões rápidas sobre cuidados e moradia — e, quando há um vínculo saudável, familiares próximos frequentemente assumem essa função com mais constância do que relações mais distantes.

Ao mesmo tempo, ela percebeu que planejar autonomia é sensato em qualquer cenário, com ou sem filhos: manter reserva financeira, organizar documentos, pensar em seguros quando fizer sentido, adaptar a moradia e definir pessoas de confiança para emergências. Da mesma forma, a sucessão patrimonial não deveria ser um tema adiado indefinidamente, porque a ausência de um plano claro pode abrir espaço para burocracias longas, conflitos desgastantes e destinos que não refletem valores; e, quando existe um “porquê” nítido — proteger, educar, transmitir estabilidade —, a construção patrimonial costuma ganhar propósito e direção. Foi então que ela considerou, com gentileza consigo mesma, que talvez o arrependimento não fosse exatamente “não ter tido filhos”, mas ter empurrado por tempo demais uma conversa íntima por medo de perder a própria identidade, quando uma parentalidade bem vivida não apaga ninguém: transforma, desafia e amplia.

Não existe decisão perfeita; existe decisão consciente, e para quem está em dúvida ajuda separar a reflexão entre desejo, condições e plano de longo prazo: distinguir se há vontade real de viver a experiência da parentalidade, avaliar saúde, energia, parceria e rede de apoio, e imaginar com honestidade como seria o futuro em cada cenário. Se a escolha for ter filhos, vale pensar no modelo de criação, na divisão de responsabilidades e em como alinhar afeto e planejamento; se a escolha for não ter, vale construir deliberadamente uma estratégia de suporte na velhice e de destinação do patrimônio, porque autonomia também se constrói. No fim, a dúvida sobre ter filhos é legítima e merece respeito, mas decisões que atravessam décadas ficam mais leves quando são tomadas com afeto e planejamento, não apenas por impulso ou medo; e, se a ideia de formar família insiste com delicadeza, como um chamado recorrente, talvez seja um convite para não deixar a pergunta “para depois” tempo demais, porque algumas vontades não gritam, elas persistem, e quando a gente as escuta a tempo, o futuro deixa de ser apenas um lugar onde chegaremos e passa a ser um lugar onde pertencemos.